Paulo Autran o Senhor dos Palcos
A Cena Chora A Sua Partida
“Sou apenas um homem de teatro, sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro”.
Assim Paulo Autran abria a cena em “Liberdade Liberdade” de Milor Fernandes e Flávio Rangel no ano de 1965, símbolo da resistência contra o regime militar. E o ator foi verdadeiramente um homem de teatro, a sua grande paixão estava nos palcos, no universo das personagens, nas pesquisas de seus trabalhos. Ator, diretor e produtor, Paulo Autran sempre esteve em atividade, o teatro era a sua própria vida, seu nome se confunde com a história do teatro brasileiro. Vai ser difícil não vê-lo mais em cena, mas segundo o diretor de teatro Gerald Thomaz, “o ator está só representando mais um personagem”. Paulo Autran foi muito importante para a cultura brasileira, seu nome sempre foi sinônimo de credibilidade, de bons trabalhos, de “devotamento” à arte. A cena brasileira está mais triste sem o seu maior representante. O ator que nasceu no dia 7 de setembro de 1922 no Rio de janeiro, ainda não pensava em abandonar os palcos e tinha planos para 2008, ele estava em cartaz com a peça “O Avarento” de Molière. Paulo Autran teve uma carreira brilhante e foi sucesso em tudo o que fez, mesmo na televisão, veículo do qual não gostava muito e até desprezava, mas fez bons trabalhos, como o “Baldaracci” em “Pai Herói” ao lado de Glória Menezes e Tony Ramos, novela de Janete Clair, em “Sassaricando” de Silvio de Abreu, e em “Guerra dos Sexos” ao lado de Fernanda Montenegro, em que protagonizaram uma das mais reprisadas cenas da TV brasileira, a cena do café da manhã, em que Autran e Fernanda numa verdadeira seqüência de pastelão, atiram tortas, cremes, bolos e tudo o mais que tinha na mesa de café, a novela também de Silvio de Abreu é sempre lembrada por todos, e uma referência aos trabalhos de bons profissionais. O senhor dos palcos também passeou sua arte pelo cinema; Paulo Autran foi também importante para o cinema brasileiro e trabalhou no filme “Terra em Transe” de Glauber Rocha, um marco do “Cinema Novo”, segundo alguns críticos, bastaria este filme para marcar a ferro e fogo a imagem de Paulo Autran no cinema nacional, mas ele fez mais. Um mestre na arte de construir ilusões, uma pessoa extremamente inteligente, dotado de um “Dom Divino”, um deus das artes. Foi tudo o que quis em cena e fez tudo o que quis na vida, viveu intensamente e brilhou intensamente, cantou, brincou e encantou. Estimulou uma nação com o seu repertório, qualquer pessoa sabe bem quem foi Paulo Autran. Um homem, uma paixão, uma poesia; ele foi Rei, foi Deus, foi um Judeu, foi Político, foi um Revolucionário, foi Pai, foi Avô. Seus trabalhos no teatro vão desde “Um Deus Dormiu Lá Em Casa”, ao lado da eterna amiga Tonia Carrero a quem lembrou-se de deixar um beijo momentos antes da sua morte, até “O Avarento” de Molière, passando por “My Fair Lady”, “O Homem De La Mancha”, “Seis Personagens À Procura De Um Autor”, “Eqqus”, “Édipo Rei”, “O Homem Elefante”, “A Tempestade”, “Rei Lear”, e muito mais teatro... Hoje a cena está mais triste, aquele brincalhão que costumava nos alegrar, aquele homem sério que nos fazia pensar, aquele incrível ator que nos conduzia do riso às lágrimas, não estará mais em cartaz, por mais que procuremos nos teatros do país, não o encontraremos, mas a sua essência é eterna, e permanecerá assim, como uma obra de Shakespeare (Rei Lear):
- (...) Se quer chorar por mim, tome meus olhos; Eu o conheço bem; Paciência. Nós nascemos chorando: (...) Nascidos nós choramos por chegar a este palco de tolos.
Paulo Autran nos deixou um legado e teremos que lidar com essa lacuna que agora se abre, a falta permanente daquele que sempre abrigará nossas mentes.
O Senhor que era a flor nos olhos dos anjos.
Tão perto está a despedida que é como se já tivesse eu partido... A cada olhar que se aproxima e no meu se desfaz, sinto a tristeza à hora da ida, Cada olhar que me busca tão distante de mim, é o meu olhar, Que me reflete além das flores dos olhos dos anjos, Dos olhos de tanta gente, Dos olhos de uma platéia... Cada olhar que meu é perdido, É perdido para além da noite, Em que nas janelas e nos palcos me coloco antes das nuvens buscar, Cada olhar é meu... No qual vejo a minha própria despedia, Vejo meus olhos no vôo das asas, No vôo das cenas, No vôo das flores... Vejo as minhas asas, As minhas mãos em súplica... Que em meu vôo são as asas da rosa, Que chora a minha partida, Chora em meu olhar, Chora em minha cena, Chora a minha morte... Chora por mim, a ausência dos palcos...
Escrito por Mauro Medeiros às 18h31
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